‘THIS IS HOW WE DIE’: «TONIGHT THE TONGUE IS A WEAPON»

This Is How We Die esteve em palco nos dias um, dois e três de junho, na Culturgest, no âmbito do Alkantara Festival. O primeiro espetáculo a solo do actor, encenador e músico Christopher Brett Bailey é uma viagem fatal pela cultura americana e um exorcismo estonteante de um mundo convencido que está a morrer, histórias de paranóia, amor juvenil e ultra-violência que se manifestam numa odisseia de humor-negro e prosa de pesadelo.

Sentado atrás de uma pequena mesinha de madeira clara, Christopher Brett Bailey (pele translúcida, cabelo loiro e espetado à Son Goku, botas Dr. Martens e uma camisa de mangas curtas) parece refreado pela geometria. Essa sensação, contudo, desvanece-se no instante em que quebra o silêncio com “o uivo ameaçador de um radialista demente”, como descreveu Andy Field na Exeunt Magazine. Com ecos de Lenny Bruce, William Burroughs, poesia beat e filmes de série B, interpreta This Is How We Die, espectáculo da sua autoria que estreou a 14 de maio de 2014 no Norfolk & Norwich Festival, em Norwich.

This Is How We Die: «Tonight the tongue is a weapon»

Assistimos a uma peça de teatro com um só personagem em palco, um intérprete que lê um texto, uma performance aparentemente maleável. E que, contudo, sabemos constituir-se de uma série de escolhas dramatúrgicas deliberadas. O monólogo, criado aos 25 e interpretado por Bailey aos 28 anos, no melhor estilo de poesia beat e discurso agressivo, é cuspido com ferocidade, linha após linha, num ritmo implacável e através de uma narrativa estonteantemente desorientadora. É mais do que teatro, é cinema, literatura e música – e um bocadinho de stand-up comedy, talvez.

CBB_THIS IS HOW WE DIE_credit Matthew Humphreys

ph. Matthew Humphreys

Entre fios narrativos que tropeçam uns nos outros, justa-posições irreais e uma selvajaria histérica, a autobiografia extravagante (que não é, evidentemente, autobiográfica) de Bailey leva os espectadores a transformar as palavras em imagens e a segui-las na esperança de lhes encontrar o sentido. Em verborreia confessa decapitações, homicídios e até uma empalação. Aborda questões de género, sexualidade e masculinidade.

Destaca-se o momento em que nos conta como conheceu os pais da namorada e percebeu que, perante a situação, só podia ser amor. Quando nos fala da altura em que, após a namorada ter declarado um “go fuck yourself”, iniciou um jogo de sedução com ele próprio e, ainda, claro, a reflexão sobre o porquê de enterrarmos os mortos debaixo de terra – terá algo a ver com o espaço que ocupamos quando vivos?

É impossível não sermos transformados pelo espectáculo de Bailey nem o querermos ver uma segunda vez, sobretudo porque é difícil fixar os pormenores todos à primeira. Sobressaem as sensações como as texturas e os ritmos em que as palavras se transformam, num ruído absoluto, que nos atinge no final. A forma como após um tsunami de sons, uns mais distintos que outros, Bailey abandona o palco e os espectadores ficam num limbo entre o bater das palmas e a esperança de que ainda não tenha chegado ao fim. Porque temos perguntas, nos falharam partes e precisamos que repita, para termos a certeza de que não se perdeu nada pelo caminho. Não acabou efectivamente e, no espaço que não vemos mas ouvimos, Bailey ainda lá está. A tentar ensurdecer-nos.

ChristopherBrettBailey_THISISHOWWEDIE_1_Credit Claire Haigh

ph. Alkantara Festival

Aclamada pela crítica, This Is How We Die recebeu o Arches Brick Award e um Off West End Award. Quanto a mim, ouso dizer que será para sempre um dos espectáculos mais duros e bonitos que alguma vez presenciei. Um espetáculo de ansiedade, dor, horror, mas também de amor, humor e optimismo. Sobretudo sagrado, pelo potencial catártico. Para ver ou rever assim (sempre) que possível.