Vitória & Abdul, o chá e a rainha das frutas

Vitória & Abdul, o chá e a rainha das frutasJudi Dench e Ali Fazal em Vitória & Abdul

Graças à Spread the Word e aos cinemas NOS, descobri que, entre muitas outras curiosidades sobre o chá, afinal gosto de o beber sem açúcar, desde que de boa qualidade. A ante-estreia do filme Vitória & Abdul contou com uma autêntica tea party, lições sobre a cultura indiana e o poder da amizade e, espantem-se, uma surpresa deliciosa para acabar em beleza.


Tudo começou com um convite para assistir ao desenrolar de uma amizade improvável entre a Rainha Vitória e um jovem indiano que é obrigado a deixar o seu trabalho como funcionário numa prisão em Agra, à sombra do Taj Mahal, para ir até ao Reino Unido entregar um presente à monarca.

Chá, ou TEA (Transporte de Ervas Aromáticas)

Quando cheguei ao El Corte Inglès, reencontrei-me com as miúdas mais in da blogosfera. Antes da nossa sessão de cinema, colocámos a conversa em dia enquanto comemos scones com compota de frutos vermelhos e bebemos chá de canela ou o tão tipicamente inglês Earl Grey com leite.

Sempre bebi mais café do que chá e a minha relação com o chá não começou como um amor assolapado à primeira vista, mas como uma solução para regular o intestino e afastar a maldita prisão de ventre. Costumava beber chá com açúcar, ainda que muitos tea lovers o vejam como um verdadeiro ultraje, mas a pequena festa do chá que prepararam para nós mudou completamente o cenário.

Chá. Como servir as rainhas?

Fomos presenteadas com uma aula de protocolo para rainhas, onde nos ensinaram que não devemos deixar que a chaleira toque na chávena nem tilintar com a colher quando estamos a arrefecer o chá. Mas a curiosidade do dia tem mesmo de ser a descoberta do papel dos portugueses no consumo de chá em Inglaterra. Pois é, a verdade é que, depois do chá ter sido descoberto pelos chineses, foi introduzido na Europa pelos portugueses e popularizado na corte inglesa pela Rainha Catarina de Bragança.

Em 1662, a Dona Catarina, Rainha Consorte do Reino de Inglaterra por ser casada com o Rei Dom Carlos II, viajou para Londres com folhas de chá entre os seus pertences. Diz a lenda que as caixas transportadas pela rainha foram marcadas como Transporte de Ervas Aromáticas, abreviado para TEA, palavra que em inglês significa chá.

Recomendo: The true story behind England's tea obsession

Enquanto aprendemos a história da segunda bebida mais consumida no mundo, apreciámos um chá à nossa escolha. Com medo do Earl Grey ser demasiado amargo para mim, e de um pouco de leite não fazer diferença, experimentei o de canela e esqueci-me de pedir açúcar. Bendita a falha de memória. Bebi de um trago e não resisti a ir buscar mais uma chávena cheia. Perguntei pela marca, que infelizmente não me recordo, mas sei que se vende na Charcutaria Moy, no Príncipe Real.

Festa do Chá

A Sílvia, do blogue O Dia da Liberdade, registou-me num momento de concentração

Vitória & Abdul, uma ante-estreia especial

Uma hora depois aconchegámos-nos no escuro para descobrir como é que um jovem indiano, criado no seio de uma família muçulmana, se tornou amigo íntimo da Rainha Vitória e, por isso, conseguiu ascender socialmente causando, como seria de esperar, grande consternação na corte inglesa.

Não quero adiantar demasiados pormenores, mas Judi Dench, que representou pela primeira vez a Rainha Vitória no filme Sua Majestade, Mrs. Brown (1997), é absolutamente incrível. Começa logo por uma cena hilariante em que a rainha está à mesa com inúmeros convidados e come tão rápido que, mal alguém dá a primeira garfada, o prato é retirado para dar lugar ao próximo.

Vitória & Abdul estreia nos cinemas a 29 de Setembro.

Baseado em factos históricos, é perfeito para quem é fã do género, mas sobretudo para todos os curiosos sobre a cultura de outros países e questões tão actuais quanto a tolerância religiosa e o combate ao racismo. Para além da fotografia que é de cortar a respiração, em particular quando as paisagens são, por si só, arrebatadoras. Como quando somos transportados para uma Escócia molhada e ventosa.

Gosto muito de ver filmes biográficos e não há dúvida que Vitória & Abdul me encheu as medidas. Até porque, além de simplesmente curiosa, sou genuinamente apaixonada por História. Como é óbvio, fica mais do que recomendado.

Mas quem é a rainha das frutas?

No filme, o jovem indiano Abdul Karim, interpretado por Ali Fazal, diz que a manga é a rainha das frutas. Não hesito em concordar, não fosse a minha fruta preferida. Talvez tenha sido apenas sorte, mas a verdade é que, no início do evento, nos foi entregue um saco e pedido que só desvendássemos a surpresa no fim.

Confesso que pensei em tudo menos numa manga. Primeiro pensei, dada a ocasião, que faria sentido ser uma chávena e respectivo pires. Até porque o serviço de chá a circular era de fazer cair o queixo.

Chá. Serviço de chá

É ou não é um serviço de fazer cair o queixo?

Depois, calculei que, sendo menos dispendioso, podia ser uma caixa ou caixas de chá. Mas, se seguirem o meu conselho e assistirem ao filme, vão perceber que, não existindo maneira de conhecermos uma Rainha de carne e osso, muito menos a Vitória, receber a rainha das frutas é a maior das honras.

Como é óbvio, com o presente surgiu um desafio. Criar uma receita com manga. Pois é, senti-me tramada. Sou uma péssima cozinheira e, verdade seja dita, gosto mesmo é de comer manga simples. Mas, como não quero desiludir, deixo-vos em troca uma sugestão valiosa. Vão provar o Chicken Mango (frango guisado com molho de manga e especiarias) ou o Prawn Mango (camarão guisado com molho de manga) ao Palácio de Buda, o meu restaurante preferido de comida indiana e nepalesa em Lisboa.

Prawn Mango in Palácio de Buda

Camarão guisado com molho de manga, fotografado por Luís P.

  • Andreia Moita

    Gostei muito Raquel. A tua explicação sobre o chá faz voar para lá, para aquele, dia outra vez e para quem não esteve é muito esclarecedor. Eu adoro chá e comecei a beber sem açúcar já há alguns anos. O de canela é mesmo maravilhoso e não necessita de doce nenhum, porque aquele sabor é mágico. Deixo-te uma dica, para te ires habituando, enquanto ainda for difícil, mete uma colher pequena de mel, fica muito bem em alguns chás. Beijinhos 🙂

    • Raquel Dias da Silva

      Obrigada Andreia 🙂 Também achei que o de canela era perfeito sem açúcar! Mas hei-de experimentar isso da colher de mel. Beijinhos