Chapters and Scenes 2# – Nem todos os cactos têm picos

Nem todos os cactos têm picos

Chapters & Scenes trata-se de um desafio, lançado pela Mariana do It’s Ok, que consiste em escrever sobre um filme, série ou livro tendo em conta a temática de cada mês. Novembro é mês de banda desenhada — e, com o AmadoraBD a chegar ao último fim-de-semana, é o mês certo.

Nem todos os cactos têm picos é a mais recente banda desenhada de Mosi, editada pela Polvo. E foi lançada ontem no AmadoraBD — Festival Internacional de Banda DesenhadaSpineless Cactus é a edição inglesa, estreada em Leeds no festival Thought BubbleJá trouxe a edição portuguesa para casa há uns dias com uma geribéria desenhada no interior pela própria autora (e ofereci um outro exemplar, nesse caso com um lírio, a uma amiga) — e isto das flores (e de outros elementos naturais) é uma parte muito importante desta BD, mas já lá vamos.

Em capa dura, muito bonita e a cores, com uma das protagonistas na frente e a outra no verso. Com apenas 24 páginas, lê-se bem, mas sem pressas. Uma história simples sobre duas amigas de infância, agora já na adolescência, que umas vezes estão mais próximas, outras menos — porque se metem pelo meio as paixões platónicas, as dores de crescimento e outras bifurcações que, às vezes, nos levam a afastar do caminho por onde combinámos seguir juntos.

Logo antes da BD começar, encontramos um glossário com o significado de flores e de outros elementos naturais, como uma bolota, batata ou maçã. Se não tomarmos muita atenção, é fácil perder o simbolismo escondido nas páginas que se seguem. Eu voltei muitas vezes ao glossário a meio da leitura e, ainda hoje, ao folhear mais uma vez, percebo que ainda há muito por descobrir. A título de exemplo, a primeira vinheta da primeira prancha é mais do que apenas um canteiro de amores-perfeitos e geribérias. Mas só me apercebi há cinco minutos atrás.

Sem querer desvendar muito, o que a Mosi nos apresenta é um paralelismo entre a necessidade que as plantas têm de ser regadas para não murcharem e a importância de alimentar as nossas relações para que os laços que nos unem, neste caso a um amigo, não desapareçam. Há amizades — tal como as flores — mais frágeis do que outras e até os cactos, mais tolerantes a ambientes áridos, precisam de uma gota de água em períodos difíceis (como os verões da vida).

Não acho que, da forma como está contada, a história seja óbvia. A autora até o admitiu ontem, no lançamento, que deu espaço a segundas e terceiras interpretações — como quem diz liberdade para “lermos” à nossa maneira. Neste caso, não foi difícil porque a sequência entre as vinhetas o permite perfeitamente. Há saltos entre o passado e o presente (da infância à adolescência), tempos diferentes na mesma prancha (como os desenhos animados da televisão e a cena na piscina) e elementos que parecem perdidos (como uma maçã mordida em queda livre na ponta de uma das minhas pranchas preferidas).

Tenho a certeza que vou reler este Nem todos os cactos têm picos num futuro muito próximo. Espero que também vocês possam ter o prazer de descodificar esta história tão simples, mas que tão bem fala ao coração. Afinal de contas, todos nós passámos (ou ainda estamos a passar) pela adolescência. Quem não se lembra dos seus amigos de infância? Os que nos continuam a acompanhar e os que agora são apenas amores-perfeitos (vão lá procurar o glossário da Mosi). E as crushs? As minhas foram todas muito infelizes, mas dão para me rir um pouco da inocência da altura.

Por último, quero apenas confessar (e já o tinha sentido com Altemente) que tenho curiosidade em saber como seria a história a cores. As capas — quer da série quer desta mais recente banda desenhada — são coloridas e mesmo muito bonitas. Mas o interior não está a cores e, ainda, que goste muito da paleta usada (branco, preto e cinzentos), admito que fiquei com vontade de ver a Rita e a Luísa como são retratadas na capa (frente e verso respectivamente). Por outro lado, gosto muito do traço e do estilo de desenho da Mosi e estou ansiosa por uma banda desenhada com mais fôlego (assim de 48 páginas para cima, de preferência).

Descobri a Mosi — licenciada em Pintura e fundadora da associação cultural EriceiraBD — por causa de um grupo fantástico de apaixonados por banda desenhada, onde tenho o prazer de assistir a (e às vezes participar de) discussões virtuais (mais ou menos acesas) entre editores, argumentistas e ilustradores. E acabei por a conhecer na última edição do Iberanime. Foi uma oportunidade que me surgiu de surpresa no programa e pude assistir a um workshop de ilustração. Aproveitei, nessa altura, para comprar Altemente, uma série de três bandas desenhadas, editadas pela Comic Heart (onde também podem comprar originais de Nem todos os Cactos têm Picos).