#WOMENDOBD | Celebrar a banda desenhada no feminino

finalmente-o-verão-women-do-bd-meek-sheepIlustração de Jillian Tamaki

O Festival d’Angoulême foi, no ano passado, acusado de sexismo e, em consequência, nasceu o movimento #WomenDoBD no Twitter. Porque sou uma mulher apaixonada pela 9.ª arte, partilho uma lista que elaborei* para celebrar a banda desenhada no feminino.

A primeira lista divulgada dos 30 autores nomeados para a 43.ª edição do Grande Prémio do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, o segundo maior na Europa, não incluía qualquer mulher – e, em 42 anos de história, a única vez em que uma autora ganhou o Grande Prémio foi em 2000: Florence Cestac foi a feliz contemplada.

 

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Em 2014, Marjane Satrapi entrou na lista de nomeados ao lado da britânica Posy Simmonds. Em 2015, a franco-iraniana, criadora da aclamada obra Persepolis, foi a única mulher a integrar a lista de nomeados para a distinção principal do festival francês. Antes da alteração de posição, a direção afirmou que, apesar de amar as mulheres, não pode refazer a história da banda desenhada.

A verdade é que, embora os homens usufruam de uma maior visibilidade na indústria, há cada vez mais mulheres a lutar não só para sair do anonimato como para alcançar o mesmo estatuto que os seus pares. A lista que se segue pretende representar a qualidade e diversidade feminina na BD.

A 1.ª iraniana a escrever BD

A romancista gráfica, ilustradora e escritora infanto-juvenil Marjane Satrapi é reconhecida como a 1.ª iraniana a escrever banda desenhada. Em 2001, Persepolis ganhou o Prémio para a Primeira Banda Desenhada no Festival d’Angoulême. Em 2002, o volume dois da autobiografia gráfica ganhou o Prémio para Cenário. Em 2007, a sua adaptação cinematográfica ganhou o Prémio do Júri na sua estreia no Festival de Cannes.

Dois anos antes, em 2005, a sua obra Poulet aux prunes ganhou o Prémio Para Melhor Álbum, para o qual Broderies já tinha sido nomeada em 2004. Poulet aux prunes, a história do músico Nasser Ali Khan, parente de Marjane Satrapi, chegou a ser adaptado ao cinema, com a atriz portuguesa Maria de Medeiros a integrar o elenco.

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A cartoonista do The Guardian

Posy Simmonds é, sobretudo, reconhecida como cartoonista do The Guardian, para o qual desenhou as séries Gemma Bovery e Tamara Drewe, publicadas mais tarde em formato de livro. Após ter frequentado a Central School of Art and Design, começou a sua carreira em 1969 com o cartoon diário Bear, no The Sun.

Em 2000, Gemma Bovery ganhou o Prémio da Crítica, concedido pela francesa Associação de Críticos e Jornalistas de Banda Desenhada. Tamara Drewe, por sua vez, teve direito a adaptação cinematográfica por parte de Stephen Frears.

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A voz argentina das mulheres

Maitena, escritora e cartoonista argentina, começou a sua carreira como ilustradora gráfica em jornais, revistas e editoras. Fazem ainda parte do seu currículo alguns contos eróticos e argumentos para televisão.

A sua série Nós, as mulheres é consagrada em muitos países como a grande revelação da literatura humorística. Álbuns de banda desenhada que abordam a problemática psicológica da mulher contemporânea, mas sempre com um toque de humor, mesmo no meio da desgraça. A sua página humorística, na revista argentina Para tí, é traduzida e publicada em vários jornais estrangeiros, como o El País e o La Stampa.

A dupla

As primas Mariko e Jillian Tamaki são conhecidas pela novela gráfica Skim, publicada em 2008. Skim foi nomeada ao Eisner Award em duas categorias, Melhor Publicação para Jovens e Melhor Álbum Gráfico – Inédito. Mariko e Jillian foram nomeadas para o prémio de Melhor Escritora e Melhor Desenhadora, respetivamente.

Em 2014, lançaram, novamente juntas, Finalmente o Verão!. No mesmo ano, a obra arrecadou um Ignatz Award na categoria de Melhor Novela Gráfica, um Horn Book na categoria de Melhor Livro de 2014 e um Governor General’s Literaly Award for Children’s Illustration. Em 2015, ganhou um Printz Honor, atribuído pela YALSA, e um Caldecott Hounour, atribuído pela American Library Association. Finalmente o Verão! foi selecionado para os Prémios Amadora BD 2015 na categoria de Melhor Álbum de Autor Estrangeiro.

A ilustradora que estudou Farmácia

Yara Kono, brasileira com ascendência japonesa, estudou Farmácia Bioquímica na Universidade Estadual Paulista, mas durante o curso mostrou sinais de desejar seguir outro caminho. Quando estava prestes a assumir um cargo de chefe de laboratório, soube que a sua candidatura para uma bolsa no Centro de Design Gráfico Yamanashi, no Japão, tinha sido aceite.

Em 2001, mudou-se para Portugal, estreando-se como designer. Desde 2004, que faz parte da equipa da editora Planeta Tangerina. Em 2009, ganhou uma Menção Honrosa no I Prémio Compostela para Álbuns Ilustrados pelo livro Ovelhinha Dá-me Lã.

Em 2010, ganhou o Prémio Nacional de Ilustração, com o Papão no Desvão, de Ana Saldanha. Em 2013, ganhou uma Menção do Júri na categoria Opera Prima nos Bologna Ragazzi Awards, com A Ilha, de João Gomes de Abreu, e uma Menção Especial no Prémio Nacional de Ilustração, com o livro Uma onda pequenina.

As portuguesas na BD

Joana Afonso desenhou O Baile, de Nuno Duarte: obra que ganhou, em 2013, o prémio de Melhor Álbum no Amadora BD e seis categorias nos Prémios Profissionais de BD. Em 2014, a ilustradora foi a autora destaque do Amadora BD. O ano passado, cheguei a entrevistá-la para o Espalha-Factos.

Marta Monteiro venceu, em 2014, um prémio de excelência da publicação norte-americana Communication Arts, com a obra Sombras, o seu primeiro livro infanto-juvenil. Apesar das suas obras serem consideradas livros ilustrados, há autores que defendem que a narrativa sequencial em que assentam as incluem na banda desenhada.

Sónia Oliveira começou a sua carreira como artista profissional em Glasgow. Atualmente trabalha regularmente para editoras portuguesas, como a ASA-Leya e Edições Nelson de Matos. No currículo, coexistem capas para livros, bandas desenhadas curtas e ilustração infantil. Época Alta é o exemplo de uma história curta, apenas duas pranchas, que criou com André Oliveira. A banda desenhada O Poema Morre, de David Soares, foi desenhado por si e lançado na última edição do Amadora BD.

Época alta, de André Oliveira e Sónia Oliveira

Carla Rodrigues colabora em muitos projetos tanto de banda desenhada como de ilustração. A rubrica cómica sobre cinema A Garagem de Kubrick, com argumento de JB Martins, é desenhada por si. Em 2011, a banda desenhada Empregado Precisa-se, integrada na publicação Zona Negra 2, com argumento do mesmo autor, ganhou a Melhor Obra Curta dos Troféus Central Comics. O livro Aqui e Acolá: histórias dos dois lados do Atlântico, que agrega quatro bandas desenhas de oito autores, inclui o seu nome. A antologia de banda desenhada Portugal 2055 também conta com ilustrações suas.

 

A Garagem de Kubrik, de J. B. Martins e Carla Rodrigues

Existem muitas mais mulheres a fazer banda desenhada e prometo voltar com um artigo com mais nomes para vos espicaçar a curiosidade. Entretanto, se gostavam de começar a ler BD, convido-vos a espreitarem as minhas sugestões de comics a ler; e se até já são fãs do género, por que não deixarem as vossas próprias sugestões de autoras a conhecer?

* Lista originalmente publicada no Espalha-Factos.