Como sentir-me bem na pele de uma lingrinhas

l-bodies-good-bodies-flower-wreath-45ph. Grace D. Chin

Sempre fui magra, mas, durante muito tempo, significou comer o que me apetecia e não conseguir ultrapassar os 37kg. Se por um lado ficava feliz por não ter de passar fome, por outro debatia-me com o facto de me sentir com pouca energia (comesse o que comesse). Era uma lingrinhas e os meus colegas rapazes não me ligavam nenhuma porque, ao contrário das minhas colegas, eu não tinha curvas. Por isso, gostava de partilhar, sem qualquer condescendência, a minha experiência.

“Most people have no idea how good their body is designed to feel.” – Kevin Trudeau

Tenho 21 anos, 1,56 e normalmente estou nos 45kg. De vez em quando desço para os 41kg. Recentemente perdi algum peso, mas ando a tentar reverter urgentemente a situação. Até ao último ano do Ensino Básico, não ultrapassava sequer os 37kg.

Eu tinha, como se costuma dizer, perninhas de alicate. Mas comia, diz a minha mãe, como um camionista. Por outro lado, o único exercício que fazia era o que me obrigavam nas aulas de educação fisica – e eu até gostava de ginástica e de jogar futebol, mas era porque sempre adorei andar às cambalhotas e às caneladas. Já não tenho educação física nem faço ginástica ou jogo futebol.

Quando entrei para uma escola nova, no 5.º ano, lembro-me de me perguntarem se tinha a certeza de estar no sítio certo. Eu não chegava ao balcão da papelaria, mas cabia em qualquer buraco. Ainda hoje, a maior parte das pessoas acha que sou bastante mais nova. Não é só por causa da altura nem só pelo peso.

Agora já tenho umas curvas e um peito que se apresente, mas continuo a ser confundida com uma adolescente, o que se deve obviamente a toda a minha estrutura física. Claro que era algo que me afetava, sobretudo nos meus 12/13 anos. Ainda por cima a maior parte das minhas colegas eram mais velhas. A minha melhor amiga era a única miúda que tinha menos seios que eu (e, hoje em dia, nem isso). Sempre foi muito desejada pelo universo masculino, por causa do seu corpo atlético, de quem pratica desporto, atividade para a qual, no geral, nunca tive paciência.

No que diz respeito à minha pessoa, para além de estudiosa, o que no secundário é o mesmo que dizer marrona, era uma piolha, uma tábua de engomar para anões ou uma trinca-espinhas, adjetivo na altura super na moda por causa da telenovela Anjo Selvagem.

That’s always seemed so ridiculous to me, that people want to be around someone because they’re pretty. It’s like picking your breakfast cereals based on color instead of taste.” John Green, Paper Towns

Lembro-me de comprar roupa para criança até muito tarde. Tinha 16 e comprava peças para 14. As calças eram o 32, agora são o 34. Utilizo S’s e XS’s para adultos, mas calço 35, o que significa que é quase missão impossível encontrar sapatos de que goste. Para além de que teimam em indicar-me a secção das crianças. Ora, eu não quero sapatos estampados com o rosto de uma qualquer celebridade juvenil.

Admito que já não me sinto mal, mas na altura era uma grande treta porque os miúdos diziam aquelas tiradas de quer-se é carne para agarrar ou és mesmo um pau de virar tripas. Por outro lado, sempre odiei a minha barriga, porque nunca foi lisa como às das minhas amigas magras nem nunca me ficou tão bem como às minhas amigas curvílineas. Não deixei de comer, mas até para isso é preciso força de vontade e a minha vida não faria qualquer sentido sem comida.

O que é que quero dizer com isto? Que sempre tive um metabolismo rápido e que os outros não percebiam que não era por eu comer mais (e eu sempre comi bastante) que engordava. Da mesma maneira que as pessoas acima do peso ou com excesso de peso até podem deixar de comer, mas não é por isso que conseguem emagrecer.

Cada um de nós tem as suas particularidades e há que considerar a genética, as doenças e uma outra centena de fatores que influenciam a estrutura do nosso corpo e o funcionamento do nosso organismo. Claro que eu tenho noção que as pessoas magras (pouco abaixo do IMC recomendado) e as normais (com o IMC adequado) são privilegiadas pela sociedade, mas são capazes de sofrer da mesma forma em alturas importantes da sua vida e precisamos de tomar consciência de que humilhar os outros é errado, ponto.

Ainda assim, acho muito importante que cada um de nós se fortaleça individualmente. Vivemos em sociedade, mas em última análise é connosco próprios que temos de lidar todos os dias. É essencial que, cada um de nós, se aperceba do quão idiota é o peso da imagem quando somos muito mais do que apenas o nosso corpo. Mas é também fundamental que sejamos capazes de olhar para ele e de o admirar, porque afinal é ele que nos protege, nos passeia, nos aconchega.

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