‘SAGA – VOLUME UM’: “É assim que uma ideia se torna real”

Saga, da autoria de dois dos mais aclamados nomes da banda desenhada, o escritor Brian K. Vaughan e a artista Fiona Staples, apresenta-se como uma space-opera, um subgénero de ficção científica que enfatiza a aventura romântica, os cenários exóticos e os personagens épicos.

“Quando dois soldados de lados opostos de um imenso conflito galáctico sem fim se apaixonam, terão de arriscar tudo para proteger uma nova vida num universo terrível e perigoso” – Saga, Volume um

Saga, influenciada pela franquia Star Wars e considerada uma junção entre esse universo e o de Game of Thrones, segue a aventura de Alana e Marko, duas raças extraterrestres distintas. Ao fugir das autoridades de cada uma das suas fações, em guerra entre si, lutam para conseguir cuidar de Hazel, a sua filha recém-nascida, que narra a história, prevendo uma esperança de vida para além do primeiro volume.

Alana é nativa de Terravista, o maior planeta da galáxia e o mais avançado tecnologicamente. Marko, por sua vez, é oriundo de Coroa, o único satélite de Terravista, razão pela qual a guerra entre ambos ocorre noutros planetas, causando o caos pela galáxia inteira. É, por isso, necessário o nascimento de uma ideia que se expanda e cresça, capaz de conquistar todo um cosmos, símbolo de esperança para dois povos desavindos. Contudo, a história não é, de todo, sobre uma guerra galáctica: é sobre ser mãe e pai num universo sem limites, povoado de possibilidades infinitas.

“Não é preciso uma aldeia para educar uma criança, é preciso uma galáxia inteira – antigos amigos, pessoas que se conheceu por acaso, estranhos… e mesmo outras crianças” – Hazel in Saga, Volume Um

Brian K. Vaughan desejava falar acerca da paternidade, sobretudo porque a sua mulher ficou grávida pela segunda vez na altura da criação da série. Mas o argumentista queria fazê-lo no contexto de um género de história mais interessante do que fazer piadas com fraldas. Posto isto, decide criar uma narrativa de ficção científica, recheada de elementos de fantasia mitológica, que ocorre num universo ocupado por seres surreais, chocantes pela sua complexa e curiosa anatomia, como a caçadora freelancer Haste, o Príncipe Robot IV ou as habitantes de Sextillion.

Com o apoio e talento de Fiona Staples, nasceu uma das bandas desenhadas mais bem premiadas de todos os tempos. Vencedora de seis Prémios Eisner, o galardão máximo da BD anglo-saxónica, um feito sem precedentes para um comic independente; um Hugo, prémio que distingue a melhor ficção científica publicada em cada ano; e ainda seis Harveys, que premeiam os melhores comicsindependentes. As razões para tanto sucesso prendem-se tanto com o argumento como com a arte.

Primeiro estamos perante uma aventura familiar, subversiva e provocante, que nos fala acerca das peripécias que é formar uma família e criar uma criança, sobretudo quando todo o mundo parece estar contra nós. Que não deixa de abordar temas difíceis – desde as questões culturais às consequências da guerra, do vegetarianismo aos problemas conjugais, do racismo à exploração sexual e infantil – constituindo-se, portanto, como, mais do que uma banda desenhada, uma crítica social mordaz.

Aliás, com um ritmo próprio das histórias de acção, há pouco tempo para respirar, mas também pouca vontade da parte do leitor. Mesmo com uma divisão em seis capítulos, parar revela-se um martírio e chegar ao final do primeiro tomo uma tragédia inevitável.

Quanto à arte de Staples, não há palavras que lhe façam jus. O desenho e as cores que abundam, trabalhadas de forma exímia no contraste, nos tons e nas nuances, impressionam a cada cena. Os personagens são tão expressivos que nem sequer necessitam de apoio dos diálogos. Ainda assim, o mais incrível é a imaginação aparentemente inesgotável para criar raças alienígenas. A raça de Alana é caracterizada pela variedade de asas: de pássaros, morcegos e até de insetos. A de Marko pela variedade de chifres.

No entanto, o destaque é dado às criaturas gigantes com que se cruzam no caminho, animais familiares, como uma tartaruga ou um javali, transformados em mutantes capazes de nos deixar cair o queixo no chão. Um trabalho irrepreensível e bastante gráfico, não aconselhado nem a crianças nem a adultos susceptíveis de se ofenderem com cenas sexualmente explícitas ou que, por outro lado, estejam preocupados com a quantidade de sangue que mancha algumas das páginas.

Perante isto, não admira que Saga esteja a fazer furor. Afinal não é mais uma história sobre o bem contra o mal. Trata-se apenas de um casal, como tantos outros (provavelmente um bocado mais cool e badass), à procura de um futuro melhor para si e, sobretudo, para o seu novo rebento. Com um argumento inteligente e bem-humorado, o leitor é confrontado com a violência do mundo através de uma narrativa ficcional e fantasiosa. Mais do que recomendado, anseia-se pelo próximo capítulo.