SOUTHERN BASTARDS VOLUME 1: “Eu estou em casa”

Southern Bastards – Aqui Jaz um Homem, de Jason Aaron e Jason Latour, mergulha no Sul dos Estados Unidos, misturando ficção e até memórias dos próprios autores, numa série criminal nomeada para vários prémios Eisner e vencedora de um Harvey para Melhor Nova Série.

UM HOMEM CONTRA UMA CIDADE

A edição portuguesa da G. Floy Studio do volume um da série Southern Bastards chegou às bancas em Abril de 2016. Earl Tubb é o protagonista. Ao regressar a uma pequena cidade do Alabama apenas para esvaziar a casa do seu velho tio Buhl, Tubb arranja sarilhos com Boss, o treinador de futebol da equipa local.

A premissa é, na verdade, bastante simples. Um homem que, contra a supremacia de um outro, numa cidade que se sente impotente, decide que é hora de se impor, embora as chances de ganhar sejam poucas ou mesmo inexistentes.

“Só precisam de ganhar coragem para se erguerem e serem ouvidos.” – Earl Tubb in Southern Bastards – Aqui Jaz um Homem

Earl é racional e até suave no discurso, mas a certa altura começa a passear com um bastão de basebol. Até aí jurara que a sua estadia seria breve e que se manteria afastado da cidade e da fama do seu falecido pai, que ali fora xerife há 40 anos atrás, sagrando-se um southern bastard. Após a morte de um conhecido, às mãos da equipa do Boss Coach, ir-se embora deixa de ser opção.

Enquanto faz frente ao treinador e, consequentemente, a uma equipa inteira de basebol, Earl tenta comunicar com alguém cuja identidade é apenas revelada no epílogo. Até ao desfecho, o leitor é brindado com tanta autenticidade quanto clichés. O condado de Craw apresenta-se, num ambiente rural, ultra-violento, à maneira sulista, com montes de churrascos, muito futebol americano e, afiança Aaron, “talvez uma ou duas gargalhadas.”

UMA SÉRIE PARA OS IDIOTAS QUE TODA A GENTE PENSA QUE OS SULISTAS SÃO

A paleta de cores é recheada de vermelhos-escuro, castanhos e amarelos, que nos dão a sensação de estarmos a vislumbrar o inferno na Terra. A primeira página choca o leitor com a imagem de um cão a defecar em frente a vários sinais que anunciam igrejas à beira da estrada.

Este primeiro volume não desenrola por aí além, focando-se em apresentar os personagens e a backstory. Permite ao leitor, por isso, ambientar-se e ver despertar em si curiosidade suficiente para ansiar pelo próximo capítulo.

O Sul é conhecido por um passado de corrupção em pequenas cidades. Quer o argumentista, quer o desenhador são southern boys com uma relação amor-ódio com as suas origens. Aaron, que promete nunca voltar ao Sul, descreve-o como o sítio mais pacífico onde já esteve, mas também como “um lugar de que podemos ter saudades e amar e odiar e ter medo, tudo ao mesmo tempo”. Latour, por outro lado, voltou para o Sul porque percebeu que “muito do seu absurdo até é querido.”

Southern Bastards – Aqui Jaz um Homem é o início de uma série para os idiotas que todos pensam que os sulistas são, os rednecks que eles próprios têm medo de ser, e pretende, nas palavras de Jason Latour, “enterrar esses filhos da puta todos. Para lhes cuspir na campa.”

À venda na Fnac.

A partir do terceiro volume, entra em cena Roberta, de quem já falei na publicação sobre as minhas super-heroínas da banda desenhada.